Sertão
29 29UTC maio 29UTC 2010
Sabes o que dizem de ti? Que és cacto e pedra. E tens poeira na veia e ranhuras no peito. Que não te importas com a fome quando ela chega à ti. E que com o sol fizesses pactos de morte porque da vida aceitas somente o fardo. Dizem também que nada cresce em ti que não seja ácido e seco. Que és rançoso para o sabor e manso para a sela. Dizem que tua penitência começou quando o mar se foi, e sem ele não és nada. Dizem muito ainda. Que és inútil, infrutífero, impróprio. Que tua história foi talhada por fugidios que não tinham pra onde ir, e que findaram no meio do nada, com uma faca cega e uma cuia d´água apenas. Dizem que estás tangido à ser sempre um arraial fraco, de loucos e pobres, que mendigam pão, rogam por respeito e creêm em caridade. Dizem que o cangaço morreu, e conselheiro também. Dizem que por aí não mora Ninguém. Dizem que és ruim para a escola e que mal sabes falar-certo. Dizem que tu nem mais fala, fala? Dizem que tens a timidez dos que baixam a cabeça para o coronel. Muito dizem de ti, mas cada vez menos, és lentamente esquecido. Dizem pra tu esperar. Dizem que vai chover…
“Cacto, pedra, poeira, ranhuras,ácido, seco, rançoso, inútil, infutífero, impróprio, fraco, ruim, timidez, esquecido…”
Boto todas essa palavras num copo de vidro, daqueles em que se bebe cervaja ou pinga no bares mais escondidos da ribeira, e bebo tudo de uma vez só…
Haile! Hahaha
Ser.tão…
Também chove por aí, sim. conselheiro não morreu, mataram! Numa guerra de que ja falamos, que continua.
E tanto falam que nem dizem nada, e tanto quanto mais dizem, que a gente nem sabe…
e só é, tão.
é minha respiração.