O Mundo de Dentro.

16 de junho de 2010

Um marujo velho deixou seu rastro na água quando à bordo do mar. Foram muitas as revoluções e nenhuma a convalescência: adoeceu de liberdade. Sem cura nem respostas, se tratou com ervas-daninhas, amores danosos… viveu de procurar feitiços. E de guardá-los saudáveis, fora da escotilha, junto dos firmamentos.      

FIM.

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porco-do-mato

15 de junho de 2010

http://www.youtube.com/watch?v=z3NHIGuaDZE

” […] mais uma cidade. está lá, à vê?, óh lá., deitada como uma ninfa frígida em seus tecidos de ceda branca. g-e-n-t-i-l-m-e-n-t-e- abanada pelos nobres escravos de gizé. quieta, quieta e seus milhões de escravos quietos! colônias e colônias subservientes ao óbvio. ao escambo. até hoje. conformes e conformados. ungidos pela beatificação da lei. relutantes ao infinito. com suas vidas de festim e suas jóias de araque. ah moedas de falácias! centavos de riquezas! opercatos! sibilantes! burgos! não vês como se servem da ração e bebem do veneno? do próprio até!?  vestidos assim, vêz?, com estas fardas assépticas, de aparência e reclusão. são estes os povos sem  maldade libertária. sofregamente pacíficos. firminos. muito católicos. enfeitados de ‘mentirinhas’ e todos os demais tipos de escrúpulos. são estes, justamente estes que ‘engendram a peste’ _como diz o blake lá  ou aquele mucambo da galiléia. são estes que se perdem nos vícios da matéria e se dão pelo imediato da história. estes são seres do tipo que graduam sanidades enquanto poluem rios. e que investem em bolsa de valores mas se atrasam  pra pegar o filho na escola,. afinal, não ensinam suas crianças porque pagam pra isso. não fazem sua comida porque pagam pra isso. não caçam nem plantam o que lhes devia ser próprio: seu alimento, suas idéias. estão ocupados demais com a interminável ânsia de produção. re-produção. de objectos. de subjectos. em tal caráter de ciência, de evolução, que todos, mais cedo ou mais tarde, adquirem os mesmos hábitos nas mesmas prateleiras, os mesmos medos, as mesmas manufaturas. todos quietos! serviçais de uma ordem. dominados, talvez, pelas incessantes propagandas de desnecessidades. ou pela fajuta idéia de demokracia. seja o que for, parecem satisfeitos com suas idas-e-vindas ao trabalho. e suas pequenas regalias de luxo.“: assim também falava o bucaneiro.

intimidades

11 de junho de 2010

dentro de mim, deste

pendor vazio

um fauno inveterado grita, rááá ráááá

e rasga crepúsculos. e invade perdidas dimensões.

adentra bibliotecas e rasga livros. resvala 

na pele do tempo…

e são breves suas visitações. mas

o tempo sangra. as folhas com tantos escritos voam

(viram pássaros!) e arranham novos corpos,

como se dá

também o sorriso da noite.

e quantas estrelas o fauno atordoa?

se sabe que nunca mais retorna

ou quando, com garras de aço

assanha os cabelos-luz dela,

e pousa quase dócil sobre a maciez de seus seios.

e olha profusamente para dentro de suas vestes tuaregues

nos seus olhos negros,

antes de adormecer cálido

como só um fauno dentro de mim pode ser.

O Bar.

5 de junho de 2010

um dia pra destilar o tempo. porque o tempo também destila os corpos.   em pingos, tal qual o alambique com a garapa doce da cana quisto apurar do sumo.

[…] Lugar para se perder palavras e encontrar o riso de-si-mesmo. http://www.youtube.com/watch?v=Nej4xJe4Tdg

Um marujo e seu barco!

3 de junho de 2010

As paredes, quatro. Uma masmorra úmida e escura o  havia inteirado consigo. E aos abutres e pardais que pousavam na janela, confiava-lhes em segredo: navego para onde meus pés pisam, porque ninguém pode deter o que não tem fim. Não posso ser levado, trazido, morto… Daqui estabeleço novas pátrias, estou sempre a mercê das intermináveis sensações. 

http://www.youtube.com/watch?v=g3bjD5Gc1iw&feature=player_embedded

Sertão

29 de maio de 2010

Sabes o que dizem de ti? Que és cacto e pedra. E tens poeira na veia e ranhuras no peito. Que não te importas com a fome quando ela chega à ti. E que com o sol fizesses pactos de morte porque da vida aceitas somente o fardo. Dizem também que nada cresce em ti que não seja ácido e seco. Que és rançoso para o sabor e manso para a sela. Dizem que tua penitência começou quando o mar se foi, e sem ele não és nada. Dizem muito ainda. Que és inútil, infrutífero, impróprio. Que tua história foi talhada por fugidios que não tinham pra onde ir, e que findaram no meio do nada, com uma faca cega e uma cuia d´água apenas. Dizem que estás tangido à ser sempre um arraial fraco, de loucos e pobres, que mendigam pão, rogam por respeito e creêm em caridade. Dizem que o cangaço morreu, e conselheiro também. Dizem que por aí não mora Ninguém. Dizem que és ruim para a escola e que mal sabes falar-certo. Dizem que tu nem mais fala, fala? Dizem que tens a timidez dos que baixam a cabeça para o coronel. Muito dizem de ti, mas cada vez menos, és lentamente esquecido. Dizem pra tu esperar. Dizem que vai chover…

Carlos, o telúrico

23 de abril de 2010

Eis um homem em sua arte sobre viver. Dois sapatos vagabundos lhe sustentam pernas e pensamentos… claro, elegância natural. A coluna sempre contorcida sobre o peito tenta confortar o âmago depois de tantas andanças aprendendo à resistir ao lugar-comum. Sua face, tanto quanto pude olhar com atenção, me parecia sempre um vasto campo verde cujos olhos corriam na frente como dois cães alegres. Homem subterrâneo, contínuo e dirigido… (como me falou quando questionado sobre obrigações). Como bem-material nunca admitiu mais que um saco velho e sincero onde dentro punha à descansar um bom livro, uma cachaça forte e limões. Hoje, quase posso garantir que percorre as montanhas andinas, as indomáveis estradas americanas ou está de felícito retorno às suaves e saudosas  ilhas de creta. Também agradecido, professor!

in memoriam de Professor Carlos, 1 ano de boas lembranças.

 

Cântico aos Piratas da Nova Era

19 de abril de 2010

Ah! O humor daqueles que sabem investigar a beleza em cada recôndito! Estes seres iluminados que não se servem de garçons… e vão ao terraço dos fundos porque preferem brindar e fumar com os criados; que não sacam as palavras da bandeja, simplesmente; mas se embriagam delas bisbilhotando a cozinha, saqueando o bar, fuçando o lixo. Prezados que burlam as esfínges e zombam dos espelhos!; que traçam rotas intermináveis pelo simples fato de não gostarem de ouvir “e eles foram felizes para sempre…”; Ah! esses raros companheiros  em todo o mundo!, como é bom encontrá-los nestas tronchas esquinas de ângulo-reto que fazem as ruas com os destinos!

a Chuva

17 de abril de 2010

Ou o que são esses dias frios, se não ditames para o que segue? Me calo, não penso: é que a chuva molha as entranhas da alma e a fazem transbordar com o que são. O corpo suspira lonnnnngo e tênue _um cigarrito, si? um cafezito…_ da janela escancarada, como de uma donzela sem intenções, recebo o afago simplório da solidão.  

Sangue, Seiva e Tinta.

16 de abril de 2010

Menina-cuba. Enquanto caminha

Gosta de pensar que as árvores crescem. 

[o besouro sobrevoa sua roupa enquanto caminha… ela se assusta achando graça!] Antes, amassara o papel às 9; 

e rabiscou Fuera Fidel! ao lado do tênis mesmo. Saiu

Com uma poesia à cada passo.

potiguà

13 de abril de 2010

Descalço, reconheço este solo: é meu! Aqui estão as raízes do inhame que plantei no passado para alimentar meus filhos. Ainda aguardando-os, posso sentir o calor dos corpos de nossas mães, sentadas e nuas perante a fogueira, à escutar o rio, a palavra, a meditação de nossas noites sagradas. Posso ouvir bem perto os anciões marcharem pintados para a última batalha – que ainda não terminou, apesar de tantas perdas. Sim, o  cheiro dessa terra está tão vivo em minhas narinas que meu faro desponta até o cariri, e me guia. 

.:Òké Arô:.

 

Sobre o diálogo entre homens:

11 de abril de 2010

— Isto é um assalto!

— Não tenho armas. Não tenho brinquedos. Não tenho idéias. Hoje sou um fulano numa noite sem datas. Não tenho hora marcada. Não tenho a lhe dizer. Não tenho à te dar. Vejo  o progresso que o mundo conseguiu com esse mesmo sorriso pobre há anos.  E o homem feliz, e o homem triste. E as nuvens… (olha lá elas!) Vejo que você está tão solitário quanto todos o são. Sem grandes desencantos, como eu. Se quiser, poderá atirar. Sem culpas, porque também não as tenho. Cultivo outras formas de incoerência, e plantas, e a parte boa de se estar de passagem. Mas para o que decidir, por favor, seja violento. Senão, minha paz o será, impiedosamente. E o matará à partir de hoje, até que você descubra que está morto, e pronto, pra renascer.

Trabalhador do Mar

7 de abril de 2010

Da lida diária com as linhas d’agua, trago em mim calos e avencas, não só de tecer a fina malha do arrasto, nem de puxá-lo do mar com firmeza… mas de dia após dia agir como o primeiro: abrir minha rede sobre as águas, vê-las ao fundo cantar minha prece, e esperar pelo que não tem obrigação de me ser justo.

 

Vestígios Humanos

1 de abril de 2010

Especialmente nas noites em alto-mar, quando o navio oscila em ondas bravias e as fendas da madeira úmida rangem de prazer por navegar em tão propícias condições para a libertinagem, se compreende que uma noite é suficiente para tudo. Sorrateiramente se pode até invadir a eternidade: porque os porões podem guardar pra sempre o cheiro do sexo feito ali, fielmente, como os búzios guardam dentro o murmúrio do mar. 

Ave Azul

31 de março de 2010

Ele que viu, no galho de uma árvore seca, a pena de uma ave azul, como à mim, confiada ao mundo por um fio, aprendeu também à não pedir misericórdia, e a flutuar, ainda que com tantas dores, ainda se tão pouco o céu. Ir. 

sinceridade

29 de março de 2010

Enviei-lhe o que tinha. Mas sei que não foi o bastante. Alguns legumes, boa cachaça e sururú. Nada de grandioso cresce no meu quintal… além da fortuna que acumulo quando navego em minha rede de pano, à sombra da mangueira, logo que chego da maré. Talvez por estar acostumada com buquês de alaridos também não tenha entendido o pacotinho com as pequenas sementinhas que enviei junto, embrulhadas em papel de pão, e escrito às pressas: “Cícios…”.

Descolonização

27 de março de 2010

“— Há! Tomaram o navio! Dirigem-se ao ancoradouro perto do descampado por trás da serra, à caapuera”. Gritava aos seus, o moleque.

Céu mais escuro. Lua mais clara. À toque de Iuna, cangaceiros, caboclos-de-lança, negros d’angola, guerreiras maias, vikings, entidades das matas, dos raios e do metal, povos do macro-Jê. Uma bandeira preta e amarela n’golo fincada no centro do pátio. Partiram daí à zanzar pelas cearas da nova terra, agora com a sutileza de poder brincar com o perigo. É o que temos, então. Axé!

 

O Jangadeiro:

22 de março de 2010

.
Sem vento, a jangada balança com a maré brincante…
[Pra láááá, e pra cáááá… pra láá… pra cááá…]
Inda chegou o vira-lata do tempo pra arrudear e latir…
— Mas pia a presepada! Sei lá se isso tem fim… 
E mergulhô o homem que foi pra mode refrescá o quengo;
Deu por vista o arapiá avuando de tocaia nos peixe…
Ficou ali apegadin na vigia do fato só pra vê o desleixe:
 Vunnpt! O bicho desceu que nem flecha. 
— Ôh bicho frechado da péste! Saíu foi com o coitado apinçado no bico!
Aí olhô esbugaiado pro ôto lado nas péda…
Mirou lá em riba um caba menos arisco…
Um caranguejo pintado como fogo:
Chama-maré é mermim seu nome…
—Ôxi!! Mas até parece que esse troço num tem fome…
Pra passar o dia todim esperando quem num vem!
Eu dô por fé que devo é remar tumbém…
Porque filosofia boa parece que nasce é dos estrômago.
 .

Dos trapiches

14 de março de 2010

                                                            Cada coisa no seu lugar
                                                            De origem, de partida ou de saudade…

 

horizonte!

12 de março de 2010

MARÉ-BAIXA, 23 hrs.

[…] havia aceitado o emprego sem pedir especificações. Naquelas condições, nada faria diferença desde que estivesse embarcado.

— Sem atrasos, partimos às 3!

Perguntei-lhe então se voltaríamos. Ele respondeu já de costas, saqueando minhas indulgências, — Se for, esqueça tudo que deixará aqui! Não temos espaço para pretensões.

 

Monges

10 de março de 2010

Nada me desinteressa. Portos sujos ainda me seduzem pelo seu modo de abarcar absurdos. O ar particularmente úmido, misturado ao suor dos estivadores, loucos, poetas, fugitivos, viajantes, putas,  carrega a gravidade dos corações quentes quando amam. São desertores ou celibatários entregues para além de seus destinos. No mínimo, guardam sempre um segredo intragável que lhes resguardam dos asseios comuns e os tornam conspiradores-por-excelência: nas noites de prece, gotas de seus espíritos estão à escorrer em conluio por uma mesma vala… um colostro de saliva, suor, urina, poemas, cerveja, sangue, esperma,  escarros e toda espécie de fluídos mundanos que se dirigem ao mar da nossa santíssima moral. Amém!

sobrevivência

7 de março de 2010

O capim crescia novamente debaixo dos pés da flor, ela não, invencível, durou toda a guerra e mais três invernos sem esmorecer, respirando a fumaça dos bombardeios, a poeira levantada pelos tanques-mortes, a fuligem de desesperança que se desprendia das mãos dos sobreviventes que zanzavam pelo lugar. Não se apossou do tempo  para seguir passeando em novas auroras. E assim viu passar por ela os ventos em espirais, carregando, por vezes, os julgamentos todos, noutras, as imprecisões dos juízos conceituais, em outras ainda, as mais variadas formas  de afrontamento bélico. Nunca fingiu viver. Suas raízes estavam bem firmes à terra quando respondeu à todos: sua última pétala deitou Bem-me-quer.  

Uma noite entre gatunos e dançarinas

27 de fevereiro de 2010

Muito discretos, à noite, os gatos e as estrelas  ficam à compartilhar  palavras — esses embustes humanos que   insistem em ficar, tal qual aqueles, por sobre os muros. Foi assim que os gatos e as estrelas as conheceram e passaram à brincar com suas tolas idissincrasias. Porém, diferentemente dos homens, as usam com outros fins, não acreditam que elas podem gerar comunicação, ou se preferir, comunicar ação… pronunciam cada sílaba com muito esmero, sussurrando-as, porque gostam quando as sentem borbulhar lentamente nos lábios à medida que vão saindo, ganhando uma espécie de materialidade oca, como fatos empalhados e postos dependurados nas paredes de uma sala-de-estar. Estes seres noturnos aprenderam porfim a apreciar essa pitoresca invenção humana, e às vezes se divertem com isso. Mas quando querem dizer algo realmente, os gatos te olham no profundo com aqueles olhos de espaço sideral, e as estrelas, as estrelas brilham, e dançam, e nos olham do infinito de sua solidão planetária, sem palavras, e explicitamente.          

A LIQUIDEZ

24 de fevereiro de 2010

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Um passeio pela orla
Seguindo as curvas e o bom-tempo
Adormece as variações do ego
E solta os nós do pensamento.
 
Os cabelos voam c´a ventania,
As ondas vêm e trazem o mar
Pra perto dos passos parceiros
Que se molham sem se moiá.
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(Literatura de Cordão, em Esperanto)
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revolución caliente!

21 de fevereiro de 2010

No seio da américa latina, o choro sem lágrimas. Minhas palavras também descem secas quando lembram de teus olhos assustados em meio a folhagem, embora ainda tão ferinos e vivos… mas não sei, as digo agora sem surpresas e isso não molha mais a minha face. Poderia até calar para ser mais enfático e trabalhar em silêncio ou sorrir para uma bela redenção política  interior. Mas não serei um ponto tácito  a mais quando muito já me acostumei a esperar, quando tantos esgotam no cotidiano as forças para a manutenção de um si-alheio, ou quando, ironicamente, há tantos benfazejos ébrios ou castos dentro das veias abertas destas terras sem fim. É preciso anunciar o que é do porvir:  

                  http://www.youtube.com/watch?v=dOSnT1lfvNs 

Campesinos (in memoria)

20 de fevereiro de 2010

http://www.youtube.com/watch?v=PRmUFSr8O94&feature=related

Às mesmas quatro da manhã, no assentamento Don José Maria Pires, entraram nas casas de palha com tochas na mão. As mulheres gritavam e as crianças choravam ainda metidas em seus lençóis sem entender a melancolia daqueles desvairados que invadiam seus sonhos durante a fria madrugada. Nada restava à terceira geração de homens, todos presos e bem amarrados. Um cão morreu porque não quis sair da casa, mesmo em chamas, mesmo assim.  Ordem da “justiça”: a terra pertence ao usineiro! Está ali, nas palavras, no papel, pra quem quiser ver, disse marretando as sílabas o capataz. Ficou a crua sensação de que nada resta aos homens até se iniciar um novo dia. 

O paquete continuou empinado diante do mar durante dias. Às 4 e meia da manhã todos estavam por ali. A nação de quem vos falo também poderia! Todos os dias.  O arraes já se pondo à cinquenta braças dali com os olhos fixos no mar. Alguns homens vão descendo com as forquilhas e as varas nos ombros. As mulheres também vão se chegando, se aninhando debaixo da lona e, ainda inteiramente cheirosas do primeiro banho do dia, começam a afiar suas facas. Trazem mangas, café e bolachas. Todos sabem de sua função e esperam entre sorrisos, silêncios e todos os tipos de cumprimentos minimamente visíveis. Miguel parece fazer todas as funções ao mesmo tempo; sua pele é uma crosta queimada de sol e sal, que também parece escorrer de seus olhos, na voz, no odor. Não altera seu rítmo,  e não o vi sentar um momento. Um dia ele escolhera o nome do paquete que eu via ali imóvel apontando o horizonte: ESTRELA-DO-MAR, uma bela dama azul esperando unicamente a mística do arraes, o homem que por horas ou dias inteiros se põe a observar o mar, absorto, não se deixando afetar por nada além do sutil crispar da água quando a tainha se aproxima da costa no verão. “É hora!”, com um sinal de mão ríspido e resoluto, de trás pra frente, faz partir os vareiros para fechar o cerco enquanto correm os forquilhas para alçar as redes e impedir os saltos das tainhas que querem liberdade…   mas à revelia do propósito, as que conseguem felicitam nitidamente os olhos dos que vivem, por assim dizer, à pescar dores. 

A espada

8 de janeiro de 2010

E assim ocorre que o homem somente parece seguro naqueles terrenos em que toca o fundo (cortázar); é quando implora ao jogo, à guerra, à moeda, à igreja, à neutralidade, ao partido, ao diploma, ao matrimônio, um território menor que sua ação, para que tenha a certeza que pode tomar de conta, sentado em sua própria renúncia. Muitas vezes acende o cigarro para justificar sua inércia; e a fumaça no ar é como as teorias que inventa para preencher o espaço entre seu umbigo e as espumas brancas do mar. Porque à partir dali nada lhe pertence, não lhe diz respeito. As espumas brancas, barba branca do mar, acaricia a face humana, pequenos, irmãos gêmeos dos grãos de areia, das proezas de seu ego, da sua idéia de tempo e sapiência… mas a maré sobe, um dia sobe e o engole no passo do inesperado. Só aí se vê o homem! quando não dá pé, o céu acima e abaixo: sutil oportunidade de ser justo consigo mesmo. Nesse momento há de lembrar sempre que o falcão passa três vezes diante de sua cabeça, sete palmos acima, buscando-o, alertando tua pouca vista que só o teu grito divide a montanha em Querêres voadores, e não menos. 

29 de dezembro de 2009

http://www.youtube.com/watch?v=9x36gfyk_jY                     (risos dos camaradas e mais uma dose de pinga sobre o paiol)
Segue a vida-baile,
Balé do mar, segue…
Segue a vida, Viva!
Balé da vida, na ponta
Da sapatilha, gira, 
Vida que segue,
Folhas que caem
O mar recebe.
_

Sobre os veleiros no verão.

28 de dezembro de 2009

                                                         O sol anuncia a safra
                                                         De cajú, manga, mel.
                                                         Lá na beirada do céu
                                                         O sol com trombetas douradas…

Escuta quem conquistou a escuta.: a conversa das labaredas destrona e o canto dos pardais reitera. Sentar à fogueira e andar pela calçada _ compasso de jazz !, arde e caminha…  Porque se vai às ondas como quem respinga, desmerece.   

— Não cala, não ama.

Tuas mãos na alvorada são cavalos em trânsito: e o que fazes? Teu receio, põe fim à ele hoje. Hoje! Vai às ondas e arremessa a pedra-de-fogo.

—Vê? Vê ela repicar… tssi… tsic… tsiii..,

veleidades.

Patchamama

27 de dezembro de 2009

Contou-me josé, com trajes-inca, emocionado, sentado na pedra, enquanto eu prendia um capim entre os dentes e majuliava meus pés dentro da água. (…) Enfática: “Antônia.”, dizia ao olho  quando sentia que era observada por outrem — a única palavra que se permitiu aprender durante a vida. Fora isso, não falava; às vezes laboriava algumas coisas incompreensíveis entre os lábios,  cochichando algo entre o carinho e a força de um cajado em riste. Com ela haviam cipós, lãs e fios de variadas cores, cordas  e penduricalhos de todas as formas e tamanhos. Mulher entrincheirada no tempo, debaixo da sombra dos coqueiros, fiando seus exércitos de pano… pés na areia, à esfregar. Ao lado, sempre., uma áclide emadeirada, espécie de flecha que se arremessa preso a uma correia; também a usava pra pescar todos os dias antes do amanhecer. Comia somente pela manhã, variados frutos do mar e algumas espécies de flores. Morena. Morena.(!) Olhos negros. Olhos largos. Dona de um sorriso inteiro, impressionante!, que desarmava qualquer tolice mais pesada que a fuligem de seu perfume branco. Tive a impressão, naqueles dias, que se movia de acordo com as conformações das correntes de vento, observava-os com parcimônia e parecia, às vezes, claramente discordar de suas decisões. Passava o dia sentada à fiar bonecos guerreiros e cobertores grossos. Colocava-os desorganizadamente à sua volta. Soltos. Um dia se foi. Apenas ‘se foi’, levantou, me olhou de longe, equilibrou uma lata na cabeça e partiu. Ficaram os cobertores e os bonecos espalhados pelo coqueiral, dezenas e dezenas de pequenas almas  convidadas à nascer. Antônia não será entendida porque é um bicho como uma vaca, um largato, uma coruja. São rugidos do oriundo. Tecnologia desabitada.

  *pacha mama : Mãe, Mãe terra.

caninos

24 de dezembro de 2009

um porto!, mais um porto… um gole e outro: é hora de desembarcar as tralhas na praia, cair o corpo n´areia, mais um gole, outro… caído, respirar e respirar, encher o peito com a dança dos redemoinhos que habitam essa costa, dançar… dançar e cantar, invadir…  à revelia de qualquer sorte piedosa, a verve do mar é maior, aos alísios, esses ventos medonhos que levam e trazem a bonança e a austeridade, às tartarugas em suas jornadas como as minhas, aos búzios…

Essas foram as palavras que me vinham até levantar a vista e ver uma dúzia de cães selvagens agrupados à beira da praia correndo uns pelos outros, alguns uivando com os pescoços rijos, outros montados sobre fêmeas postas a gemer roucamente, dentes à amostra, latidos e pelos eriçados; todos notavelmente saudáveis, imperiosos e livres. Estava em transe, absorto, tomado pelas garras de minha própria alma  quando um deles parou o olhar em minha direção e despertou a atenção de todos. O barulho cessou de uma vez e a matilha se encaminhou para o meu mundo. Comeram-me o vazio sob os pés. Por anos não mais os vi, embora, muito embora, os escutasse nas noites quentes ou quando mercantes ousavam se aproximar da praia. Não morri mais desde aquele dia, estava suspenso, suspenso e guardado pelos meus doze guardiões.

 

 

Cântico Sob às Nuvens Negras

23 de dezembro de 2009

“chova-me”, assim é minha prece de hoje. quando nem sei de que tipo de homens falo. quando mulheres desabrocham rente a cerca. quando cães agora latem pra muros acimentados. quando as desculpas deixaram de ser  conquistadas para qualharem à noite para o café-da-manhã. quando o relento ficou morno demais para ti e os meus filhos  têm que brincar dentro das grades e pântanos. quando o lugar-comum compra meus amigos à baixo custo e meus inimigos também choram. quando uma fábrica de explosivos nasceu na vizinhança para alimentar os passarinhos. Chova-me! Chova-me! que as nuvens me perdoem, mas chova-me! sem pena, sem medo!

http://www.youtube.com/watch?v=4-EIi7ToTkA&feature=fvsr

Âncora

22 de dezembro de 2009

O mar brando dessa noite permite que ele acenda uma vela dentro do convés e se concentre no trabalho cartográfico com um classic bent à boca. De fora, por entre as gotas de humidade que se formam nas pequenas janelas, seria possível vê-lo atento, hora de olhos fechados, hora com olhos grandes compenetrados no vazio. Age primeiro no vazio. Por horas, lá está, a vela, a sombra imóvel de um homem na madeira e o mapa aberto, sedutor. Cautelosamente traça a rota, calcula a angulação do leme, as referências náuticas, os pontos cardeais… um último trago lhe apraz profundamente antes de sair e ver as estrelas dançarinas boicotarem toda sua inocência. (cantarola um samba lascivo qualquer e dorme, dessa vez sim, solitário, mais uma vez sem rumo)

Rio Potengi

15 de dezembro de 2009

                                       
                                                      “Up a cane river to wash my  dread…”      
                                                                                     Robert Nesta Marley

Vou descer o rio para lavar meus dreads. O caminho é diferente dos outros caminhos. A história do igapó se levanta todas as vezes que penso ir lá. É descendo a escadaria da praia do meio ao lado do hospital universitário passando pelo cheiro de cais pelos gatos torpes pelas pequeninas casas que já das portas se mostram por inteiras cortando a rua do motor praça dos heróis o estuário forte dos reis magos… Potengi. Rio maiúsculo, sagrado para quem nasceu em suas margens e profano para quem cresceu diante da sinuosidade de teu curso. Onde posso entregar meu fardo, lavar meus cabelos e escorrer sinceramente foz afora: mais um dia de redenção mergulhado em teu leito! Porque quando o sol se põe lá já não é mais dia; pode-se escutar a noite conversando com o rio, e o mar reverberando mais adiante. Típico caso de lugar sem silêncio.

 

!ABRAÇO

13 de dezembro de 2009

É este gesto à dois, tombado no exímio toque de dois corações quando se enlaça os braços envolta, um terno símbolo do infinito. Ao domingo pela manhã fui abraçado por ela, do qual compartilho. “…era como un árbol arrancado de su tierra. Estaba privado de su cielo, separado de su mar, de sus árboles, de sus pájaros que tanto amaba. Pero dondequiera que fuera estaba trabajando, publicando, no había un día que no golpeara al traidor con sus versos. Vivía en compacta solidaridad con sus ideas, en el único orden que él aceptaba: la verdad. Era como un raudal que corría por las tierras áridas del destierro y, lo más sorprendente de todo, es que nunca perdía su humor, era como un desafío.”  Ela: Matilde Urrutia, em seu livro “Mi Vida Junto A Pablo Neruda”, falando dele, do homem, quando em exílio. Poeta-navegante, que nosso grande mar também abraçou para sempre. 

Alforria

11 de dezembro de 2009

Quintana lhe ensina uma vez só os benfazejos de uma linha curva quando se vai assim, de um ponto à outro. Mas lembre antes, limpa bem, e coloca na tua bagagem mais próxima, a coragem que lhe pertence e toda a sinceridade do viver que conseguistes acumular. Taí., numa canoa de toga colorida, um cabôclo matreiro manso muito bem sentado em riba do fugão de proa. Vai é se deslizando na calmaria do estuário sem fazer questão de pressa. É a velocidade que tupã lhe deu pra sofrer.   

Carta à Barlavento

10 de dezembro de 2009

Verdade. Um homem terá sempre que aceitar seu naufrágio para poder prosseguir. Declaro hoje o meu, ao fundo do mar, sereno, sem melancolias. Terás os destroços do velho barco em algum ponto da bacia e, talvez, mais felicidade por ele não mais navegar nas tuas águas. Sem amor, à mulher que amei. O (novo) Corsário.

Porque a pele de uma grande mulher é exatamente igual à superfície de um Oceano.  

Deserto de Escafandria // um relato

9 de dezembro de 2009

(Quarta-feira, à leste do Mar Morto; primavera)  Lugar sem água e sem poesia como qualquer outro. Os grãos de cirbínia, uma espécie de feijão selvagem atroz, cobriam por completo a imensa planície formando morros, depressões e elevados até subirem retos como paredes gigantes e fecharem por acima os sonhos numa caixa. Lá, seu único cidadão: o escafandrista. Ele não falava; não ouvia; nem tinha do que se defender. Pelo tubo fixado na volumosa roupa até uma das arestas do canto lá no alto, respirava palavras, que íam e vinham à contento. Comia feijões tostados e, quando acordado, seu únicoousadoridículo sonho era encontrar um peixe naquela aridez de suposições. Vivia assim, de errâncias.

em Babilônia ( בבל ):

2 de dezembro de 2009

Dezoito dias de ira!, é o que já dura o encontro dos pólos, e no centro: dos trovões vim saber e não cabe SE-QUER um passo atrás. Pode-se presenciar, enfim, o estrondo, a ventania e a incandescência dessa estrofe; o movimento das nuvens negras e esfumaçadas uivando raios no céu e avançando por sobre tudo. Mas é perante a lua que já consigo sorrir à meia-noite; e a cada desvelamento do improvável também ao meio-dia. Pois sei que a marcha está em trânsito, e em boas mãos, sim? Vê-se o dorso curvo das baleias subindo e descendo solenes à profundidades do invisível. Caçam em bandos. Em meio ao mar revolto há que se conquistar maior amplitude de pensar e agir do que se tem contra _ com calma e sem demora. Esgueirar-se pra não morrer e crescer pra não se amiudar. Porque diante do dragão um homem-só há de ser menor ainda.

Redinha Velha, praia da

28 de novembro de 2009

Aos 92 anos Seu dantas passava com o carro-de-mão cheio de côco verde, uma enchada, uma pá e um facão. Todos os dias. Religiosamente. Um cachorro muito vivo o seguia pra cima e pra baixo. Como concordâncias, andava sempre meia légua atrás ou à frente dele e nunca recebera do velho outro nome que não fosse “cachorro”, sem aspas, cachorro.  Eu ainda era muito jovem, talvez uns 8 anos, mas sempre que o via, mesmo que estivesse concentrado à fazer buracos, amarrar anzóis ao nylon ou ouvindo alguém falar, parava e escutava imóvel o rítmo de seus passos curtos e firmes até desaparecerem. Se ele me visse, cumprimentava, sempre com a mesma elegância: primeiro pondo o peso no chão, reerguendo calmamente a postura, o fôlego, um olhar leitoso levantando levemente o boné rasgado da cabeça e no mesmo movimento a secagem do suor que dali me parecia tão igual à água do mar. Um sorriso e se ia.

[da questão do tempo nyah’]

27 de novembro de 2009

                                                                                    _ maresia corrói correntes.

                                                  ζ

.continente

26 de novembro de 2009

O barco vinha à deriva (…) sobre palavras-marolas, o leme solto, pés pra cima dependurados na escotilha, vento fuçando na vela folgada fazendo barulho de preguiça-demônio e um pano amassado se fazendo de travesseiro pra erguer a cabeça já cansada de ir sem prumo. Banzo atacou meu coração!, e o dia acabaria de estorqui-lo logo o mais.  Mas quando deu fé: o casco rossou cúmplice de algo apalavriado, a moça da ilha veio e abriu sua mão e pôs um punhado de areia fina. Ele plantou a areia na polpa. —Vou fazer um continente à mais tarde.

Cântico Sobre as Encostas e Abismos

24 de novembro de 2009

estão corretas todas as profecias. os velhos sabem e falam menos, observe. o cheiro de sândalo percorre o Atlântico — algumas borboletas o seguem, à descobrir. vinte e três graus e meio é o ângulo da terra que promove as estações e orienta a re-volta-revoada das borboletas, dos velhos, dos matemáticos. dos navegantes, só o sertanejo respeita a chuva: os demais são convidados à jamais se ajoelharem perante ela.   (enquanto) há flores, há forças. 

                          assobios

 

Madrugada de mais um dia sem fim.

22 de novembro de 2009

._   http://www.youtube.com/watch?v=2BtUQbblCWo&feature=related

Na entrada da cidade um crioulo inclinado nas duas pernas traseiras da cadeira apóia a nuca no muro e dedilha carinhosamente uma guitarra fosca sob a penumbra de uma luz cadente e vaga. Desintoxica-se. Escutava-o desde algumas léguas, o que me fez andar mais rápido até lá. Não mexe um músculo, cordial. Passo. Vejo-o mirando por debaixo da lapela e calmamente voltando a cerrar os olhos-sem-medo. O vento entra comigo na ruela estreita feita de pedras desencontradas e lisas. Não há mais ninguém. O barulho do vento, do mar, a música, meus passos. Vejo as janelas guardando as camas quentes e as tigelas d´agua ao pé próximo; o sono destes todos exala pra mim o cheiro dos elefantes após a chuva. “Não há como dormir tranquilo!” balbuciou o negro quando eu desistia de amanhecer na cidadela.

Sabotagem

16 de novembro de 2009

  …em alto-mar, o encontro com outras embarcações refresca-me a memória de Ybytãtã. Piratas ou aventureiros de meiatigela certamente ou estão fugindo do marasmo que é a vaidade humana ou estão enfrentando o próprio marasmo com uma bússola quebrada no bolso. Nunca se sabe: mas foi o primeiro pensamento que me veio. Pensamento burro!, por sinal. Fugir? Enfrentar? O que são, senão tolices de movimento_.  Há pouco me contaram que em determinada raiz indígena brasileira, não raro, quando alguém da aldeia sente que há um problema grave, caminha até encontrar solução. Um deles, sabedor de que o alcoolismo destruiria sua tribo num tempo não tão distante, assim o fez, llegó a lo Mexico cinco años después. Trouxe na capanga uma política-feitiçaria que poderia nunca ter sido encontrada.

ANANKE

11 de novembro de 2009

ONDA ESPATIFA-SE // Pensamento acorda! – “a rocha não é mais a mesmaaaaa”, grita pro alto, o mais alto diante do céu, sem a pretensão de ser entendido, bem-verdade; ainda é de manhã e não são necessárias mais fronteiras. Debaixo do horizonte cardumes passam como nuvens negras à boreste, e acima, há que se determinar tarefas pra continuar: erguer velas, baixá-las (nas tempestades e intempéries), manter seco e limpo o convés, preparar as iscas para a próxima refeição, manter a rota, o espírito. Não é liberdade o que flutua no mar. Nada se busca quando se vai ao sabor do vento. Se aceita o servir-à e se trabalha_hard-work. Quero ir ao Mar do Caribe, do povo “caraíba”, habitantes originais da região, politeístas, exímios navegantes, pescadores e caçadores. Além disso, morrerei no mar. Do resto, hoje não sei.

Barco n´agua

4 de novembro de 2009

Mar aberto é para poucos. Urge o silêncio e nada mais. Não há mão-amiga nas próximas luas. Há uma proa apontada pra Dentro. “Quem é que não há de ter medo de um urso?” Perguntou o matador de ursos de Kostroma_Tolstói. Yê Mãe Jah!, sobra pouco o que dizer. Pode ouvir o cântico das sereias murmurando tua entrega ao embriagar-se com uma concha de aguardente, pólvora e sangue para tudo Sê simples e digerível, ou pode pensar com os dentes, trincá-los em fechamento do corpo: e ainda abrir os olhos para ver o voga desaparecendo em sua barriga de navegar dor. E continuou o matador de ursos: “Mas quando a gente põe os olhos no bicho, adeus medo, e aí estamos nós prontos a fazer tudo para que a fera nos não escape.” À demain, mon cher!

Homem Comum

29 de outubro de 2009

Algures, homem que segue! Vinde de tão longe! e com Quantas farpas e vincos, Ladeiras, montanhas, desertos Tivestes que passar pra Aprender? Todos os dias escovastes o limo Do tempo e suas botas de guerra. Religiosamente destes corda no relógio Da sala-da-esperança. Sim, conhecestes o sabor de cousas sagradas – Da tristeza. Dos exageros. Do riso de asas, então! No entanto, Com a sabedoria dos ancestrais Aprendeu a polir os sentidos para Silenciarem nas horas maiúsculas. Navegou e foi navegado. Travastes jogos secretos, E seu peão honrou a rainha sempre. Quando caiu soubestes bem da queda! Estivestes atento a grandiosidade do universo Com suas luas, vozes, infortúnios. Do ato estrelar alimentastes teu filho! E vais assim: daí agora, Por mais tantos e tantos caminhos Novos-velhos. Perseguindo O rastro que deixa o dia As vidas das noites antes de acordar… Em estro, e passo depois de passo. (Passo depois de passo!) Sem claudicar consigo mesmo, Nem à esmo pôr-se em abdicações! Os olhos penetrando no horizonte, tão, E somente. Sua proa, homem, ainda irá à quantos desconhecidos? Tens o marulho do mar todo em Pensamento. E, sabes, se queres pode evocá-los Em suas rezas de silêncio e fogo: Eu e Eu pulsa no peito. Bem solicitastes das dúvidas a resposta, E soubestes certamente Que só a paciência tem ouvidos tão apurados. Ainda não sabes o exato peso do existir: Mas, sabes, há nas circunstâncias Um beijo breve Do futuro na criança. – Ouves? – Sim, caminho só para isso!